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Entre a democracia e o simulacro de democracia

Entre a democracia e o simulacro de democracia

Paulo Pimenta (*)

Empresa não faz autocrítica. Empresa realinha procedimentos para alcançar seu objetivo, que sempre é bastante concreto: Lucro. Acumulação. Enquanto apresentava para a sociedade brasileira – somente cinquenta anos depois — o reconhecimento público de que apoiou o criminoso golpe de 1964, considerando-o “um equívoco”, a Rede Globo de Televisão se empenhava na preparação do golpe de 2016. Mais um no seu currículo.

Aí está a base que sustenta os movimentos táticos da família Marinho nesse momento de dificuldades: colocar-se na condição divina de ente tutelar da nação e recomendar que já é hora de “perdoar o PT”. Isso apenas alguns dias depois de seus porta-vozes virem a público para reconhecer a possibilidade da candidatura de Lula a presidente em 2022, diante da ruína em que se converteu a construção política das sentenças de Sérgio Moro contra o ex-presidente. O que prova apenas que a Globo tem pressa.

Oligopólio– A evolução do conflito político em que se debate o Brasil em meio a uma pandemia que alcança proporções de um genocídio, somada a uma crise econômica que se aprofunda com inevitáveis repercussões sociais, indica que o oligopólio da família Marinho – como definiu em entrevista recente o jornalista Franklin Martins, “o segundo maior partido do país” – entende que é preciso deter o ex-capitão antes que ele venha a fechar a empresa, negando-lhe a renovação da concessão ou sufocando-a economicamente.

Ocorre que os problemas do Brasil nem sempre coincidem com os problemas de caixa da Rede Globo. O país tem diante de si o desafio complexo de construir uma frente democrática voltada a reestabelecer a Constituição de 1988, violada pelo Golpe de 2016 – diga-se, com a sempre prestimosa contribuição da família Marinho – e recuperar o Estado Democrático de Direito.

Capitão golpista – Na última semana, mais uma ameaça de golpe veio a público. Desta vez nas páginas da revista Piauí. A revista denuncia a disposição do presidente da República de enviar tropas para fechar o Supremo Tribunal Federal, caso insistisse em pôr as mãos nos celulares do pai e do filho. “Vou intervir” teria dito Bolsonaro em reunião. Até o momento a denúncia da Piauí não foi desmentida pelo governo. E o STF não emite qualquer reação.

A direita convencional do Brasil colhe hoje as consequências de ter-se colocado sob a hegemonia política e cultural da extrema-direita neofascista para executar o programa ultraliberal em curso. Encontrou nela o agente político capaz de realizar o serviço sujo contra os direitos dos trabalhadores e a soberania nacional.

Ataque à mídia – O governo Bolsonaro, porém, está cobrando um preço que aparentemente não estava no cálculo: com o poderoso auxílio das novas tecnologias e da internet, realiza uma ofensiva que está pondo a pique a mídia corporativa. Inviabiliza, seletivamente, seus negócios. E a Rede Globo de Televisão entrou na alça de mira do capitão-presidente. Sua busca de reposicionar-se no cenário revela mais fragilidade do que força. Sob certo ponto de vista, beira o patético.

O país tem, independentemente das vicissitudes da Rede Globo, um problema prévio a resolver. É indispensável mobilizar a sociedade para garantir que haja eleições em 2022! E que nela possam inscrever-se para disputar todos os brasileiros aptos que assim desejarem, inclusive Lula, para que não venhamos a repetir a trágica fraude de 2018, quando ele foi arbitrariamente impedido. Sob pena da democracia brasileira ancorada na Constituição de 1988 se tornar apenas um simulacro de democracia, como temos hoje.

() *Paulo Pimenta é deputado federal (PT/RS)

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Pimenta

Pimenta é jornalista e técnico agrícola formado pela UFSM. É o deputado federal mais votado do PT/RS na Câmara Federal, pela terceira vez consecutiva.

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