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A constrangedora vergonha alheia* Por Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa

Publicado em | Categorias: Artigos do Paulo Pimenta, Notícias e Destaques |

Uma fotografia na primeira página da Folha de S.Paulo, na edição de terça-feira (27/8), resume em boa medida o mal-estar em que as entidades médicas enfiaram os profissionais de saúde do Brasil.

A imagem mostra um médico cubano, negro, sendo ameaçado e vaiado por colegas brasileiros quando saía da primeira aula do programa de treinamento para sua missão em território nacional. Os manifestantes xingavam os médicos estrangeiros de “escravos”, e chegaram a agredir representantes do Ministério da Saúde, o que descreve de maneira bastante clara o nível de irracionalidade provocada pelas declarações de dirigentes dos conselhos de medicina e outras associações de classe contra o programa Mais Médicos.

O incidente aconteceu em Fortaleza, uma das cidades escolhidas para abrigar os cursos de preparação dos profissionais contratados para suprir a carência de médicos brasileiros no interior e na periferia das grandes cidades. Segundo os jornais, os manifestantes, organizados pelo Sindicato dos Médicos do Ceará, fecharam todas as saídas do edifício da Escola de Saúde Pública e tentaram invadir o local. Depois, formaram um corredor e passaram a hostilizar os estrangeiros que deixavam o prédio.

Os relatos são curtos, mas a imagem na primeira página da Folha demonstra que, nestes dias, quem representa os médicos brasileiros são esses grupos de xenófobos organizados pelas entidades oficiais da profissão, uma vez que os demais, se têm opinião diversa, estão se omitindo.

Os jornais também trazem entrevistas com médicos cubanos e de outras nacionalidades que aderiram ao programa. A comparação entre os dois comportamentos é quase ofensiva para a classe médica brasileira: enquanto os nacionais se esmeram em atitudes agressivas e declarações preconceituosas, os estrangeiros demonstram o espírito cívico e de solidariedade que se espera daqueles que escolheram como profissão aliviar o sofrimento humano.

A leitura cuidadosa dos textos que a imprensa vem publicando a respeito do assunto indica que a vergonha que os médicos brasileiros impõem a si próprios, por ativismo ou por omissão, constrange até mesmo os jornalistas. Por mais que se esforcem para dar alguma racionalidade à posição do Conselho Federal de Medicina, da Associação Médica Brasileira e dos sindicatos da categoria, os jornais não conseguem esconder esse embaraço.

A “baixaria” de jaleco

Pode-se ler no Estado de S.Paulo, por exemplo, que o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, um dos mais ativos contestadores do programa do governo, tem dois filhos formados na faculdade de Medicina de Camaguey, em Cuba. Na volta, os moços frequentaram disciplinas complementares na Universidade do Sul de Santa Catarina e revalidaram seus diplomas na Universidade Federal do Ceará.

O dirigente sindical entende que não há incongruência em criticar o programa de importação de médicos formados no exterior, uma vez que seus filhos revalidaram seus diplomas cubanos. Mas até Eremildo, o Idiota, personagem criado pelo jornalista Elio Gaspari, estranharia a curiosa ginástica que os moços fizeram para conseguir a revalidação, transitando de sul a norte do Brasil para obter um documento que podia ser conquistado em seu próprio estado.

Os argumentos brandidos pelas entidades médicas contra o programa do governo têm esse mesmo tipo de percurso, mas terminam mesmo é em atitudes grosseiras como a da manifestação em Fortaleza, uma verdadeira “baixaria” de jaleco.

Com todos os riscos das generalizações, pode-se afirmar que o noticiário leva o cidadão comum a entender que os médicos brasileiros têm outras prioridades que passam longe da saúde pública. Para reverter essa interpretação, seria necessário que a imprensa procurasse equilibrar os exemplos e declarações, entrevistando profissionais de saúde que apoiam o programa Mais Médicos, ou que, pelo menos, não concordem com a atitude hostil insuflada pelas entidades representativas da categoria.

Mas o que se vê até aqui é apenas o confronto que tem como síntese a fotografia publicada na primeira página da Folha. No entanto, essa fotografia, ao congelar a realidade em apenas um quadro, mostra só um dos lados do que aconteceu no Ceará.

O jornal O Povo, de Fortaleza, postou em seu blog um vídeo no qual se pode observar que o protesto dos médicos brasileiros não foi a única manifestação: também havia ativistas que foram ao local para apoiar os cubanos (ver aqui).

Acontece que a imprensa, de modo geral, não está dando espaço para os cidadãos que apoiam o programa, e o noticiário apenas mostra as entidades médicas criticando e representantes do governo se defendendo.

Os médicos envergonhados também deveriam ser ouvidos.

Por Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa




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