O filme B de Ricardo Darín
janeiro 11, 2012 | Categorias: ArtigoseImprensa.
Kelly Cristina Spinelli
De Buenos Aires
Gonzalo Roldán, 27, gasta seus dias sentado atrás de um balcão vendo o tempo passar e os clientes rarearem. Ele enxerga cada vez menos salvação para sua singela videolocadora, El Padrino, espremida entre os edifícios de Palermo, em Buenos Aires.
Seu negócio passou pela febre dos VHS, pela renovação dos DVDs e vem capengando para sobreviver depois do assalto da pirataria. O último golpe veio de um site argentino – o Cuevana, lançado em 2009 -, que permite a seus usuários assistir a filmes online de graça, já com legendas em espanhol.
Enquanto a locadora consegue se manter de portas abertas, Roldán fica preso 12 horas diárias atrás do balcão. Usa o forçado ócio criativo para alimentar sua paixão pelo cinema. Além de assistir até cinco filmes por dia, ele escreve roteiros para longas-metragens, dois dos quais deu um jeito de filmar com os vizinhos.
A história de Roldán seria interessante por si só: os cinéfilos reconheceriam nela um quê de Rebobine, Por Favor, filme de Michel Gondry sobre um funcionário de uma locadora e um colega, que ficam famosos fazendo versões tabajaras de alguns dos filmes que alugam. Mas uma ousadia extraordinária fez dele um personagem ainda mais cult: Roldán conseguiu convencer o ator Ricardo Darín a participar de seu último filme, O destino de Lukong.
Sim, você leu certo. Ricardo Darín, o ator mais famoso, caro e reconhecido da argentina fez uma ponta em uma comédia pastelão de bairro, escrita, montada, dirigida e protagonizada por Roldán. O mesmo Ricardo Darín que atuou em O Segredo de Seus Olhos, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, Nove Rainhas e Um Conto Chinês.
Ah, e de graça. Roldán fez o filme todo com 3 mil pesos argentinos (o equivalente a 1300 reais) e não tinha nem mais uma moeda furada para pagar por participações especiais. “Eu sempre quis ser ator, diretor, escrever filmes. Minha vida é assim: se a montanha não vem até mim, vou eu”, diz.
Ele levou quatro meses para conseguir com um dos seus clientes o celular dessa montanha em particular. Ligou para Darín contando sua história, dizendo que não tinha um puto e que estava fazendo um filme. Foi convidado à casa do ator, onde lhe mostrou o roteiro – sobre um inventor e um porteiro que encontram um diamante escondido no corpo de um vizinho falecido-, e lhe convenceu a participar.
Darín não só apareceu para filmar, como deu dicas de atuação e filmagem e deixou um retrato autografado para Roldán onde se lê “para meu filho artístico”. Para completar, Roldán saiu à cata de famosos diversos para fazer pequenas pontas no filme, dizendo uma ou duas frases. Viggo Mortensen, o Aragorn de O Senhor dos Anéis, estava gravando em Buenos Aires e também foi cooptado.
O destino de Lukong, com Ricardo Darín e Viggo Mortensen, teve sua estreia para os vizinhos em uma sala de cinema alugada, em agosto do ano passado. Está à venda na locadora El Padrino por 12 pesos. Roldán, por sua vez, virou celebridade. Já deu entrevistas para jornais e canais de televisão argentinos. É reconhecido na rua e assina autógrafos. Se conseguir juntar dinheiro suficiente, pretende em breve filmar mais um de seus roteiros. Quem colocaria nele? “Já tenho o melhor da argentina, agora quero o melhor do mundo: Al Pacino”. El Padrino que se cuide.
Kelly Cristina Spinelli é jornalista. Escreveu para a Folha de S.Paulo, revista Piauí e publicações da Editora Trip. Mora em Buenos Aires, onde tenta entender os portenhos e aprender a desenhar
Fale com Kelly Cristina Spinelli: kelly.spinelli@terra.com.br
Fonte – http://terramagazine.terra.com.br







Enviar comentário